Bertolucci celebra 70 anos com coleção que transforma matéria e tradição em luz
Design21 de outubro de 2026

Bertolucci celebra 70 anos com coleção que transforma matéria e tradição em luz

Texto: Revista Habitare · Fotos:

Coleção Terra reúne cinco propostas autorais de Camila Sarpi, Carol Gay, Clément Gérard, Juliana Bertolucci e Rodrigo Ohtake, em uma celebração ao fazer artesanal e à identidade da marca.

Celebrar sete décadas de história é também reconhecer aquilo que permanece essencial ao longo do tempo. Para a Bertolucci, essa trajetória está ligada à experimentação com materiais, à precisão do trabalho artesanal e à criação de peças que ultrapassam sua função utilitária para assumir um papel expressivo na arquitetura e nos interiores. É a partir dessa identidade que a marca apresenta a Coleção Terra, desenvolvida para celebrar seus 70 anos e reafirmar a conexão entre tradição, técnica e design autoral.

Para marcar a data, a Bertolucci convidou cinco designers a interpretar a essência da marca por meio de novas luminárias. Camila Sarpi, Carol Gay, Clément Gérard, Juliana Bertolucci e Rodrigo Ohtake partiram de referências distintas, explorando materiais, processos e linguagens próprias. O resultado é um conjunto de criações que revela diferentes maneiras de trabalhar a luz e a matéria, com atenção aos detalhes e valorização dos processos manuais.

Mais do que uma coleção comemorativa, Terra representa um olhar sobre a capacidade de reinvenção do design. Latão, madeira, cortiça, vidro e papel japonês aparecem em composições que equilibram rigor construtivo e sensibilidade estética, demonstrando como a tradição artesanal pode continuar gerando novas possibilidades.

Versões: pendente, abajur e luminária de piso

Reconhecida por suas joias de formas orgânicas, fluidas e esculturais, Camila Sarpi transporta para a iluminação uma pesquisa que já faz parte de sua identidade criativa. Na coleção Dobras, a designer parte de sua tradicional linha de joias homônima para explorar o potencial expressivo do metal em diferentes escalas.

Produzidas manualmente a partir de finas chapas de latão polido, as luminárias ganham volumes tridimensionais por meio de dobraduras que transformam superfícies planas em formas esculturais. O trabalho evidencia a delicadeza do gesto artesanal e a precisão necessária para conferir leveza e movimento ao material.

A parceria com a Bertolucci também estabelece um diálogo entre universos distintos, mas próximos em seus princípios: a joalheria e a iluminação compartilham o cuidado com os acabamentos, a valorização do trabalho manual e a busca por uma estética autoral.

“Na primeira coleção da parceria com a Bertolucci, o ponto de partida foram os materiais das joias. Desta vez, o foco foi na técnica: transportei para a iluminação as dobraduras em metal já icônicas dos brincos Sarpi. Sarpi e Bertolucci têm escalas diferentes, mas muito em comum: produção artesanal, design autoral e preciosismo nos detalhes”, explica Camila.

Versões: pendente e coluna

O trabalho de Carol Gay combina rigor técnico e sensibilidade artística, com referências que vão da natureza às formas geométricas e aos elementos urbanos. Em Torre, a designer transforma uma estrutura cotidiana da paisagem em inspiração para peças de iluminação que exploram a relação entre engenharia, matéria e trabalho artesanal.

A coleção ressignifica as grandes torres de transmissão de energia elétrica, trazendo para o universo do design a força de suas estruturas e a lógica de sua construção. O projeto aproxima a técnica milenar do sopro do vidro da precisão da solda manual, reunindo processos distintos em uma composição que valoriza tanto a materialidade quanto o fazer.

A escolha do tema ganha significado especial no contexto dos 70 anos da Bertolucci. A torre representa solidez e resistência, atributos associados à trajetória da marca, enquanto a transformação de uma referência industrial em objeto de design aponta para novas perspectivas de criação.

“A criação da coleção Torre celebra de forma especial os 70 anos da Bertolucci, destacando a torre como símbolo de solidez e resistência. Essa escolha reforça o compromisso da marca em consolidar sempre sua presença no mercado, valorizando sua história e tradição, ao mesmo tempo em que aposta no design como diferencial para o futuro”, afirma Carol Gay.

Versões: abajur pequeno e grande

Arquiteto e designer francês radicado no Brasil há mais de 15 anos, Clément Gérard desenvolve uma linguagem que aproxima referências culturais de sua origem e do país que adotou. Seu trabalho combina sofisticação, atemporalidade e valorização do conhecimento artesanal.

Na coleção Ourive, o destaque está no encontro entre volumes e na qualidade dos acabamentos. O latão oxidado e a madeira nogueira, materiais de presença marcante, são trabalhados para evidenciar suas características naturais e estabelecer uma relação equilibrada entre textura, tonalidade e forma.

A proposta valoriza a precisão dos detalhes e a escolha criteriosa das matérias-primas. Em vez de recorrer a excessos formais, as peças encontram sua expressividade na composição dos elementos e na execução cuidadosa, traduzindo uma abordagem em que a sofisticação nasce da simplicidade e do domínio técnico.

“A coleção Ourive celebra os 70 anos da Bertolucci ao focar na identidade e nos valores de uma marca”, resume Clément Gérard.

Versões: não especificadas

Arquiteta e designer, Juliana Bertolucci orienta sua produção pela valorização de referências locais, pela simplicidade e pelos processos artesanais. Em suas criações, a atenção aos detalhes se combina a uma abordagem poética, que busca estabelecer novas relações entre os objetos e os espaços.

Em Nefi, a inspiração vem da leveza e da impermanência das nuvens. A coleção propõe uma interpretação delicada da luz, transformada em presença sutil, quase etérea. O papel japonês washi, moldado manualmente, cria volumes orgânicos que filtram a iluminação e conferem às peças uma aparência leve e difusa.

Superfícies espelhadas complementam a composição ao refletir o entorno e dissolver visualmente os limites do objeto. O efeito é de integração com o espaço: em vez de se impor como elemento isolado, a luminária parece flutuar, estabelecendo uma relação entre matéria, luz e vazio.

A proposta revela uma abordagem sensível da iluminação, em que o efeito luminoso e a atmosfera criada são tão importantes quanto a forma do objeto. Em Nefi, a luz deixa de ser apenas funcional para assumir um papel na percepção e na experiência dos ambientes.

“Em seus 70 anos, a Bertolucci reafirma sua capacidade de se reinventar — e encontra, nesta coleção, uma expressão contemporânea que une tradição, técnica e poesia”, destaca Juliana Bertolucci.

Versões: pendente, abajur e luminária de piso

À frente do escritório Ohtake, Rodrigo Ohtake é reconhecido por uma produção marcada por formas orgânicas, curvas e composições contemporâneas. Em Mani, o designer explora a dualidade entre o bruto e o refinado, o opaco e o brilhante, a partir do encontro entre cortiça e latão.

O nome da coleção faz referência ao amendoim, chamado de mani em espanhol, e estabelece uma analogia entre casca e núcleo. Essa relação se manifesta na combinação dos materiais: a cortiça, extraída da casca de uma árvore, apresenta uma superfície opaca e natural, enquanto as limalhas de latão acrescentam brilho e revelam outra dimensão da matéria.

Um dos aspectos mais significativos da proposta está no aproveitamento de resíduos da própria produção da Bertolucci. Ao incorporar as limalhas de latão ao projeto, Rodrigo Ohtake transforma um subproduto do processo industrial em elemento de expressão estética, ampliando as possibilidades de uso do material.

A coleção evidencia, assim, como o design pode criar novos significados a partir de recursos já existentes, valorizando suas características e explorando contrastes que enriquecem a composição.

“A coleção Mani foge do óbvio, como a Bertolucci, que cria novas perspectivas e faz da tradição um lugar que se movimenta e se mantém ativo”, afirma Rodrigo Ohtake.

Sete décadas de história, novos caminhos para o design

Ao reunir cinco interpretações autorais, a Coleção Terra sintetiza diferentes possibilidades de trabalhar a iluminação a partir da matéria e do conhecimento artesanal. Cada designer parte de um repertório próprio, mas as propostas compartilham a atenção aos detalhes, a valorização dos materiais e a busca por soluções que conciliem identidade estética e execução cuidadosa.

As peças revelam que a tradição não precisa ser entendida como permanência imutável. Na trajetória da Bertolucci, ela funciona como ponto de partida para a experimentação, permitindo que técnicas, referências e materiais sejam reinterpretados a cada novo projeto.

Ao completar 70 anos, a marca celebra seu percurso olhando para o futuro. A Coleção Terra reafirma o design autoral e o fazer artesanal como elementos centrais de sua identidade, mostrando que a luz pode ser também uma forma de expressão artística, capaz de aproximar memória, inovação e sensibilidade.

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