Casa térrea em granito e concreto aparente traz a paisagem para a cobertura em Portugal
Casas08 de novembro de 2026

Casa térrea em granito e concreto aparente traz a paisagem para a cobertura em Portugal

Texto: Ivo Tavares Studio · Fotos: Ivo Tavares Studio

Em Vila Nova de Famalicão, o atelier Artequitectos reinterpreta o alpendre, o pátio e a sombra da casa rural portuguesa em uma residência de 650 m² com coberturas ajardinadas

Como construir uma casa contemporânea sem perder a relação com a terra de onde ela nasce? Essa foi a pergunta que orientou o atelier português Artequitectos, dos arquitetos Nuno Filipe Azevedo e Vitor Manuel Oliveira, no projeto da Quinta da Casa (Habitação QC), em Vila Nova de Famalicão, no norte de Portugal.

A casa integra um loteamento de grandes terrenos organizado em seis parcelas individuais, as chamadas “Quintinhas”, pensado para preservar uma escala de ocupação próxima do caráter rural existente. Nesse contexto, cada casa deve estabelecer uma relação particular com o seu terreno, evitando a lógica convencional de loteamento e mantendo a terra, a vegetação e a paisagem como elementos estruturantes.

O projeto nasceu do desejo de uma família que buscava mais do que um lugar para morar: uma casa próxima do jardim, da natureza e da paisagem, onde o cotidiano pudesse acontecer entre dentro e fora, entre a proteção da casa e a abertura do exterior. Em um território de forte identidade rural, a resposta não foi reproduzir a arquitetura tradicional, mas reinterpretar alguns de seus princípios essenciais: a relação direta com a terra, a sombra, os pátios, o alpendre e a presença da matéria.

O resultado é uma casa térrea de 650 m², horizontal e contida, que concentra o volume construído e permite ao jardim ter papel ativo na experiência de morar.

Uma chegada em etapas

A casa acompanha a lógica natural do terreno e se volta para o sul, abrindo as principais áreas de convívio para o jardim e a paisagem. A chegada foi pensada como um processo de descoberta: da rua, atravessa-se um espaço de transição até a entrada de pedestres; um rasgo de luz marca a passagem para a casa e, aos poucos, o jardim começa a se revelar.

A arquitetura se constrói por esses momentos intermediários. Os pátios trazem luz, vegetação e privacidade; grandes aberturas enquadram a paisagem; e o alpendre prolonga a casa para fora, funcionando como uma verdadeira sala ao ar livre voltada para o jardim. Interior e exterior deixam de ser limites rígidos para se tornar momentos diferentes de uma mesma experiência.

A organização longitudinal segue essa ideia de percurso. Um primeiro volume abriga a garagem e as áreas de serviço, funcionando como filtro entre a rua e a casa. O hall de entrada é o centro da residência, articulando as áreas social e íntima e se relacionando diretamente com um pátio ajardinado. A sala e a cozinha se abrem para o jardim e o alpendre, permitindo que a vida em família se estenda naturalmente para fora. Mais reservada, a área íntima se desenvolve ao longo de um eixo de maior privacidade e termina na suíte principal, associada a um pátio próprio que garante luz e intimidade.

Granito, concreto e coberturas verdes

Os materiais foram escolhidos para criar uma relação física e sensorial com o lugar. O granito ancora a casa ao território: sua massa, textura e capacidade de envelhecer naturalmente aproximam a construção da paisagem rural. O concreto aparente introduz precisão e contemporaneidade, definindo os planos horizontais e a geometria da casa. O vidro abre esses planos para o jardim, enquanto elementos em alumínio filtram a luz e garantem privacidade.

O zinco, usado nos alpendres, traz leveza e prolonga o caráter horizontal da casa sobre o jardim. As coberturas ajardinadas fazem o gesto inverso, devolvendo a paisagem para cima da construção. Ao longo do dia, a luz percorre e transforma os espaços, revelando texturas, criando sombras e alterando continuamente a percepção do granito, do concreto e do vidro.

Com seu caráter horizontal e escala contida, a casa permite que a vegetação continue dominante no terreno. O granito marca os pontos de chegada; nos demais trechos, os limites se tornam mais permeáveis, e o jardim passa a participar da construção do espaço. A intenção não é fazer a arquitetura desaparecer, mas fazê-la pertencer ao lugar.

Ficha técnica

  • Projeto: Quinta da Casa (Habitação QC)

  • Arquitetura e interiores: Artequitectos (Nuno Filipe Azevedo e Vitor Manuel Oliveira)

  • Local: Vila Nova de Famalicão, Portugal

  • Área: 650 m²

  • Conclusão: 2025

  • Construtora: Vasco Fernandes Unipessoal

  • Engenharia: PN10 Engenharia

  • Paisagismo: JSM Jardinagem

  • Acústica: Ambiestudos

  • Cozinha e lavanderia: Rinaldi

  • Fotos: Ivo Tavares Studio

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