Vitrais: a arte de transformar luz em cor atravessa séculos e inspira novas criações
Design28 de outubro de 2026

Vitrais: a arte de transformar luz em cor atravessa séculos e inspira novas criações

Texto: Fabiane Bondan · Fotos:

Das catedrais medievais aos projetos de interiores, técnica une trabalho artesanal, desenho e arquitetura; na CASACOR Rio 2026, ganha uma interpretação com palmeiras de Dominique Jardy

Uma janela pode fazer mais do que revelar a paisagem. Quando recebe um vitral, passa a transformar a luz que entra, projetando cores e criando uma atmosfera que muda ao longo do dia. É essa relação entre vidro, desenho e luminosidade que mantém viva uma expressão artística com séculos de história e possibilidades de criação que continuam a ser exploradas.

O uso de peças de vidro colorido em janelas tem antecedentes na Roma Antiga, mas foi na Europa medieval que os vitrais ganharam especial destaque. Entre os séculos XII e XV, grandes catedrais receberam composições que se tornaram parte de sua identidade arquitetônica. 

Além da beleza, havia uma função narrativa. Em uma sociedade na qual a leitura era pouco difundida, as imagens ajudavam a contar passagens bíblicas e histórias de santos. Nas igrejas góticas, os painéis funcionavam como narrativas visuais, integradas à experiência de quem percorria aqueles espaços. 

A execução tradicional exige um trabalho minucioso: o desenho orienta o corte das peças de vidro, que são reunidas por perfis de chumbo. Detalhes também podem ser pintados sobre a superfície. Cada divisão participa tanto da estrutura quanto da composição da imagem, aproximando o gesto artístico do conhecimento artesanal. 

Embora associados às construções religiosas, os vitrais também ocuparam edifícios civis e residências. No século XIX, o interesse pela arte medieval estimulou uma renovação da técnica. Na Inglaterra, o trabalho de William Morris e seus colaboradores contribuiu para sua valorização nos interiores domésticos, conectando decoração, arquitetura e produção artesanal. 

Parte do fascínio está na maneira como a obra se relaciona com o ambiente. Conforme a incidência solar, as cores e os efeitos luminosos se alteram, modificando a percepção do espaço. O vitral oferece, assim, uma experiência que acompanha as horas e as estações. 

Palmeiras entre o desenho e a luz

Esse diálogo entre uma técnica histórica e a criação contemporânea aparece no Estúdio Entre Palmas, de Cristina Japiassú, na CASACOR Rio 2026. Para o ambiente, a artista visual Dominique Jardy desenhou palmeiras que deram nome ao espaço e foram transformadas em dois grandes vitrais.

A experiência marcou sua estreia na criação de uma arte destinada à técnica. O processo foi desenvolvido com Eliana, do Atelier de Vitrais, em uma troca sobre as particularidades do material e as adaptações necessárias para levar o desenho à composição dos vidros.

“Criar uma arte para ser realizada em vitral foi uma estreia para mim — e um convite que recebi com muita alegria”, conta Dominique. Segundo a artista, o aprendizado abriu novas possibilidades para seu trabalho.

Nos dois painéis, as palmeiras recebem a luz exterior e passam a integrar a arquitetura do estúdio. A criação aproxima o repertório de Dominique de um saber artesanal que atravessa gerações e encontra, no encontro entre desenho e transparência, novas formas de expressão.

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