De Paris, Danni Ricci investiga por que cerâmica, jogos de tabuleiro, maximalismo, cores quentes, artesanato e objetos quase absurdos estão aparecendo ao mesmo tempo. Talvez a resposta tenha menos a ver com decoração e muito mais com a forma como estamos vivendo.

Não são tendências, são sintomas: o que o design está dizendo sobre a sociedade em 2026?
Texto: Danni Ricci · Fotos: Divulgação
Passei os últimos dias em Paris observando objetos.
Muitos objetos.
Cerâmicas tortas, cogumelos transformados em luminárias, jogos de gamão que poderiam estar em uma galeria de arte, mesas cheias de cores, frutas que viraram esculturas, animais em lugares improváveis, formas exageradas e uma quantidade curiosamente grande de coisas que pareciam pedir para ser tocadas.
À primeira vista, meu trabalho poderia ser simplesmente organizar tudo isso em categorias e decretar: “estas são as tendências de 2026”.
Porque não me interessa apenas descobrir o que está aparecendo.
Quero entender por que está aparecendo agora.
Essa pesquisa em Paris, entre Maison&Objet e a cena de design da cidade, contou com o apoio da ABCasa, associação que representa o setor de artigos para casa, decoração, presentes e celebração no Brasil e que apoiou minha vinda para ampliar esse olhar internacional.
Afinal, de que sintomas estamos falando?
Sintomas de uma sociedade cansada, hiperconectada, solitária, saturada de perfeição e, ao mesmo tempo, desesperadamente interessada em sentir alguma coisa novamente.
O retorno do tátil não é sobre cerâmica
Cerâmica está em todos os lugares.
Lisa, texturizada, brilhante, irregular, pintada à mão, extremamente sofisticada ou assumidamente imperfeita.
Mas dizer que “cerâmica é tendência” explica muito pouco.
Vivemos cercados por superfícies perfeitamente lisas. Telas, interfaces, imagens geradas por inteligência artificial, filtros, renderizações, algoritmos.
A cerâmica oferece exatamente o contrário.
Ela tem peso, textura e pode carregar a marca de um dedo, uma pequena irregularidade, a pincelada de alguém…
Em um mundo no qual uma imagem perfeita pode ser produzida em segundos, a imperfeição começa a funcionar quase como um certificado de humanidade.
E isso aparece também na madeira, nas fibras, nos tecidos bordados, no vidro soprado e nas técnicas artesanais que encontrei repetidamente em Paris. O “feito à mão” deixa de ser apenas uma linguagem estética.
Ele passa a ser evidência de presença humana.
Não por acaso, o próprio Barômetro Maison&Objet 2026, realizado com mais de 1.300 profissionais de cerca de cem países, aponta distintividade, artesanato, sustentabilidade e experiência entre os fatores que vêm ganhando importância para geração de valor no mercado. (Maison & Objet)
O boom maximalista
Durante muito tempo, nossas referências visuais passaram por um processo curioso de homogeneização. Você abria Pinterest, Instagram ou TikTok e começava a reconhecer a mesma casa em cidades diferentes. O mesmo sofá, as mesmas paredes com paletas bege e cinza, e é fato que já estamos caminhando para um caminho oposto.
Por aqui, as paletas de cor são diversas! Rosa com vermelho. Terracota com laranja. Azul com verde. Listras. Florais. Xadrez. Animal print. Objetos enormes. Formas estranhas. Peças surrealistas. Ambientes extremamente coordenados convivendo com composições que pareciam montadas ao longo de décadas.
Talvez a nova sofisticação não esteja em demonstrar que você conhece as regras, e na verdade, já se desapega de uma necessidade de "reafirmação” imposta por outras pessoas.
Estamos aprendendo que sofisticação também é sobre autenticidade, sobre você se conhecer tão bem a ponto de fazer escolhas “ousadas” sem sentir insegurança nisso.
A casa começa a funcionar como uma autobiografia tridimensional.
Por que existem tantos jogos de tabuleiro em uma feira de design?
Essa talvez tenha sido uma das minhas obsessões durante a pesquisa.
Gamão, xadrez, damas.
Jogos tradicionais reinterpretados em madeira, pedra, couro, metal, cores vibrantes e acabamentos tão elaborados que deixam de ser objetos guardados em uma gaveta para assumir lugar permanente na decoração.
E essa valorização é muito simples de entender, afinal, todos nós estamos sentindo uma grande fadiga das telas e da performance da vida online, o analógico é o novo luxo.
Um jogo de tabuleiro exige presença, conexão entre pessoas e pausa. Existe toque, espera, conversa, ritual, tudo o que nos ajuda a desconectar e viver o agora.
Nesse contexto, o jogo deixa de ser apenas entretenimento e começa a representar algo muito desejado em 2026:
tempo compartilhado fora da tela.
E então chegamos ao Brasil
Talvez uma das descobertas mais interessantes da viagem tenha acontecido quando comecei a olhar para o design brasileiro dentro desse contexto internacional.
Vi peças brasileiras falando de ancestralidade, biodiversidade, fauna, flora, técnicas artesanais e repertórios regionais.
E elas não pareciam deslocadas da conversa internacional.
Muito pelo contrário.
Em um mercado interessado em autoria, matéria, origem e identidade, algumas características que por muito tempo foram tratadas como “locais demais” podem justamente se tornar vantagem competitiva.
Isso não significa transformar brasilidade em caricatura.
Significa compreender que temos materiais, técnicas, histórias, símbolos e maneiras de produzir que não precisam ser apagados para que o design brasileiro seja contemporâneo.
Talvez internacionalizar não seja aprender a parecer com o mundo.
E sim aprender a apresentar ao mundo aquilo que ele não encontra em nenhum outro lugar.
E o que tudo isso significa para o mercado?
O cenário não é de um setor parado, mas existe uma diferença importante entre colocar mais produtos no mercado e criar produtos relevantes.
Para mim, eles começam a formar uma constelação, pois todos, de maneiras distintas, apontam para uma busca por presença, personalidade, memória, prazer, materialidade e conexão.
Talvez essa seja a principal coisa que Paris tenha me mostrado até agora.
Em 2026, o design parece menos interessado em construir uma imagem perfeita da vida e mais interessado em devolver alguma textura a ela.
E é por isso que não quero apenas saber qual será a próxima tendência.
Quero saber qual foi a mudança na sociedade que fez com que precisássemos dela.
Porque, muitas vezes, aquilo que chamamos de tendência é apenas a parte visível.
O comportamento é o que está acontecendo por baixo da superfície.
Fontes citadas
Maison&Objet, Barometer #12: A market under pressure, yet firmly on the move, julho de 2026. (Maison & Objet)


