O atelier MiMool Arquitectura & Interiores transformou a ala sul do antigo Mosteiro de Santa Maria de Arouca, Monumento Nacional, no MS Collection Arouca, preservando as arcadas de pedra e a métrica das celas e instalando o spa sobre as ruínas da antiga enfermaria

O silêncio das antigas celas inspira hotel cinco estrelas em mosteiro secular de Portugal
Texto: Ivo Tavares Studio · Fotos: Ivo Tavares Studio
Como levar o luxo e o conforto de um hotel cinco estrelas para dentro de um Monumento Nacional, respeitando o chão que as freiras pisaram e o silêncio das celas onde dormiram? Essa foi a premissa do atelier português MiMool Arquitectura & Interiores no projeto de reabilitação do MS Collection Arouca, instalado no antigo Mosteiro de Santa Maria de Arouca, classificado como Monumento Nacional desde 1910.
A resposta do atelier foi não competir com o patrimônio, mas preservar sua essência. Desenvolvido no âmbito do programa REVIVE, o projeto transformou a ala sul do mosteiro em um hotel que se inspira diretamente na simplicidade da vida monástica. Mais do que uma conversão funcional, a intervenção se apresenta como um exercício de continuidade histórica, em que arquitetura, memória e paisagem convergem em uma nova narrativa de uso e permanência.
Além da ala sul, a intervenção se estende à antiga Enfermaria, à Botica, ao edifício de Apoio Agrícola e à extensa cerca monástica. A estratégia adota uma abordagem contida e respeitosa, sem gestos formais dominantes, permitindo que o valor patrimonial permaneça no centro. A arquitetura contemporânea surge como uma presença discreta, capaz de revelar e reinterpretar as qualidades espaciais do conjunto sem ofuscá-las.
Arcadas de pedra e antigas celas
O projeto parte de uma leitura cuidadosa da estrutura conventual que moldou a vida monástica durante séculos. No térreo, as arcadas de pedra, antes dedicadas ao trabalho e à vida em comunidade, foram reinterpretadas como recepção e áreas sociais, onde luz e materialidade reforçam uma atmosfera de contemplação e recolhimento. Uma iluminação sutil valoriza a escala, a textura e a profundidade desses espaços.
Nos pavimentos superiores, os longos corredores monásticos continuam a ser a espinha dorsal da experiência do hotel. A métrica das antigas celas foi mantida, com uma ocupação que minimiza as alterações estruturais e preserva a subdivisão histórica dos espaços. O conforto contemporâneo é introduzido com contenção, respeitando a sobriedade material e a clareza espacial do edifício existente.
Um spa sobre a ruína
A antiga Enfermaria, que estava em ruínas, recebeu o spa e representa um dos momentos mais expressivos da intervenção. Os vestígios arqueológicos foram incorporados como parte ativa do projeto, e o novo volume, que parece levitar sobre uma base envidraçada, dialoga diretamente com as fundações históricas. A ruína deixa de ser memória estática para se tornar experiência arquitetônica vivida.
A Botica foi adaptada para espaços de lazer e estar, mantendo sua configuração original e conectando-se a um pomar e uma horta reabilitados. No limite leste da cerca, um novo edifício sob cobertura ajardinada concentra as áreas técnicas e operacionais, parcialmente enterradas para preservar a leitura do conjunto histórico, além de vestiários, academia e salas de conferência ligadas à piscina e às áreas de lazer externas. Já o antigo edifício de Apoio Agrícola foi preservado integralmente e convertido em bar de piscina.
A cerca do mosteiro surge como extensão natural da intervenção. Entre encostas arborizadas e áreas mais abertas, o paisagismo recupera as estruturas ecológicas existentes com caminhos, áreas de convívio e recreação. Tanques, fontes e vestígios arqueológicos foram integrados a um percurso de visitação que reforça a leitura histórica do lugar, e, junto ao ribeiro de Silvares, uma piscina externa e áreas de descanso estabelecem um diálogo direto entre arquitetura, água e paisagem.
O projeto busca, enfim, o equilíbrio entre preservação e transformação: o novo programa não reescreve a história, mas a prolonga, devolvendo ao mosteiro uma vida contemporânea ancorada na memória, no silêncio e na passagem do tempo.
Ficha técnica
Projeto: MS Collection Arouca
Arquitetura e interiores: MiMool Arquitectura & Interiores (Ana Ferreira, Fábio Milhazes, Joana Monteiro e Rui Loureiro)
Local: Arouca, Portugal
Área total: 6.698 m²
Conclusão: 2025
Fotos: Ivo Tavares Studio
Fornecedores: Marazzi (cerâmicas), Bruma (torneiras), Artinox (iluminação), Tramas & Texturas e Aldeco (tecidos), Geberit (sistemas de descarga), Roca e Rubicer (louças sanitárias), JNF (ferragens) e Ferreira de Sá (tapetes)
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